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Acelera e breca, o trânsito de sampa
O bairro em que moro, como muitos bairros de muitas cidades no mundo, está sofrendo com a especulação imobiliária. A cada dia são construidas torres de apartamentos carésimos, enormes, com banheiro até pro Totózinho.
Acontece que esses empreendimentos vêm substituindo charmosos sobradinhos, cuja implicação vai além da estética. Cada prédio que surge remove da vizinhança uma família e coloca quinze no lugar, daí aquela rua tranquila se torna um pandemônio, com mais carros trafegando do que daria conta.
Enquanto se pensa em construir mais pontes, viadutos e metrô – que soa muito bonito na boca de um político, duvido que alguém teria coragem de enfrentar Gafisa, Tecnisa e outras construtoras pesadas emissoras de carbono.
Verônica: a s d f g …
Não digito direito, eu vivo catando milho. Azar o meu que não quis cursar datilografia. Eu não via muita função naquilo: era 1993 e eu já era agarrado com um computador, o PC XT, que tinha um editor de texto trisavô do Word – o WordStar, que dava pra apagar os erros sem recorrer ao lápis-borracha, e não era preciso usar papel carbono, nem stencil e nem mimeógrafo. Telinha de fósforo verde. Tudo era melhor que a máquina de escrever.
Verônica era/é o nome da professora datilógrafa. Muito tímida. Não me lembro do som da voz. Usava sempre blusas de lã: devia ser friorenta. Naquele mesmo ano eu percebi que o barulho dos tipos batendo no papel iam diminuindo, os alunos minguando até o dia em que ela abandonou o ponto comercial sem muito alarde. Eu a vi, cabisbaixa, entrando na sua casa de esquina, com muitas plantas na garagem, dando um ar meio sombrio. Aquela foi a última vez. Para mim, ela simboliza o fim de uma era: aquela do bilhetinho e do telefone, para a qual não voltaremos mais.



